Beira (Canalmoz) - Alice Mabota, na sua qualidade de membro do Observatório Eleitoral, disse sábado na Beira, que duvida destas eleições. “Confesso que tenho muitas dúvidas se as eleições moçambicanas foram livres, justas e transparentes”. A presidente da Liga dos Direitos Humanos esteve na Beira na companhia de Brazão Mazula, que foi o primeiro presidente da CNE (Comissão Nacional de Eleições) a fim de procederem à entrega dos resultados eleitorais da contagem paralela efectuada pelo Observatório Eleitoral que deixa clara a percepção de que à medida que se afasta de Maputo o entendimento sobre o processo eleitoral pode ser outro.
Questionada pelo Canalmoz sobre a leitura que faz sobre as eleições do passado dia 28 afirmou: “É muito difícil fazer comentários. Enquanto estive em Maputo eu não tinha uma percepção sobre as eleições. Quando cheguei às províncias a minha percepção é já outra. Eu preciso reflectir muito sobre aquilo que vi e ouvi. É muito triste. É preciso fazer-se um trabalho grande para que no futuro as eleições em Moçambique sejam transparentes, o que significa que todos os processos que estão à vista e que são percebidos por toda a gente. Que sejam livres, quer dizer, para que toda a gente tenha liberdade de escolher o partido que quer e votar em quem quer. E que sejam justas, no sentido de que a justiça tem que ser igual para todos.”
Neste momento, conforme disse, “eu confesso que tenho muitas dúvidas se as eleições moçambicanas foram livres, justas e transparentes. O que posso garantir é que foram ordeiras, o que significa que as filas decorreram de uma forma aceitável, as pessoas foram depositar o voto de uma maneira aceitável, não houve perturbações. Mas quanto a transparência, a justeza e liberdade, eu tenho muitas dúvidas”.
“Se eu ganho o poder através de um vício eu teria vergonha”
O que terá visto nas províncias?, eis uma outra pergunta do nosso repórter.
“Eu vi que houve muita viciação de votos. É com muita tristeza que assisti a isso. Quer dizer, se eu ganho o poder através de um vício eu teria vergonha. Como sabem, eu sou sempre envergonhada. Só não tenho vergonha de dizer o que me vem na alma. Mas eu teria vergonha”, sustentou.
Recorde-se que Mabota esteve recentemente no centro de vários comentários quando num encontro tido entre o ex-presidente Joaquim Chissino e juristas ela afirmou que não votaria na Frelimo. Tal aconteceu quando terminado o discurso, Chissano pediu aos presentes para apresentarem as razões de eles, querendo, votarem na Frelimo e no seu candidato presidencial, como, assim havendo, quem não queira votar nos Camaradas, apresentar, igualmente, as suas razões.
Após cerca de cinco minutos de silêncio, Alice Mabota, que também é Presidente da Liga Moçambicana dos Direitos Humanos, pediu a palavra e o micro para dizer o que lhe vinha na alma.
"Vou falar aquilo que eu sinto e penso. Não pretendo escovar ou ofender a ninguém, tanto mais que admiro e respeito muito o ex-chefe do Estado", assim introduziu Mabota, para, depois, gelar a sala com as seguintes palavras: "eu não vou votar na Frelimo e em Guebuza, porque a Frelimo humilha as pessoas, pisa as pessoas. Não concordo com o ex-chefe do Estado quando diz que tudo o que temos e somos, hoje, foi a Frelimo quem o fez. Será que, mesmo se o colono continuasse até hoje, Moçambique não estaria assim? Eu fui a primeira mulher negra a ter carro no período colonial, aqui em Moçambique e não era a Frelimo a governar".
Prosseguiu, no mesmo tom, dizendo que "o dinheiro que a Frelimo usa e tem vem dos nossos impostos, nós é que pagamos os impostos, por isso, não venham nos dizer que votem na Frelimo e em Guebuza, porque tudo o que existe e temos a Frelimo é que o fez, porque, se levarmos o mesmo dinheiro e o dermos a um outro partido, também esse pode fazer muitas coisas boas".
Sustentando as suas declarações, Alice Mabota fez saber, no entanto, que o facto de não votar na Frelimo e em Guebuza, não é sinal de que ela seja da aposição. "Com esta minha idade, não posso ser de um outro partido, senão a Frelimo, mas não tenho o cartão de membro, já o tive, mas, agora, não o quero ter, por causa das pessoas jovens que estão a dirigir agora. Por isso, não quero ter o cartão de membro e não quero votar na Frelimo e em Guebuza! Talvez se me dissesse que o governo que a Frelimo irá formar será inclusivo, mas, mesmo assim, não quero", disse então a presidente da Liga Moçambicana dos Direitos Humanos.
No contra-ataque, o orador de serviço, Joaquim Chissano, tentou contornar o embaraço, dizendo: “concordo com a doutora Alice Mabota quando diz que não vai votar na Frelimo por aquilo que fez. Eu, próprio, vou votar na Frelimo e em Guebuza, não por causa daquilo que fez, vou votar, sim, por causa daquilo que vai e pretende fazer". Mabota referiu ainda que "alguém me disse que os políticos são malabaristas e malabarismo para mim é sujeira, é crime, é corrupção. Por isso, não quero votar na Frelimo e em Guebuza".
Aliás, Chissano dissera, logo à sua chegada àquela sala, sobretudo depois de gritar viva Frelimo, viva Armando Guebuza que "eu sei que nem todos os que levantaram a mão a dizer viva o fizeram do coração; mas é normal, porque o que queria era apresentar as razões de se dever votar na Frelimo e em Guebuza".
Sobre o Observatório Eleitoral na Beira
Enquanto isto, instado a pronunciar-se sobre o propósito desta vinda à Beira, Brazão Mazula disse: “Como disse noutros momentos, nós do observatório eleitoral, fizemos a observação destas eleições presidenciais, legislativas e das assembleias provinciais. No nosso critério e método, entendemos que após produzirmos o relatório técnico preliminar tínhamos que o entregar aos três candidatos a presidência da república”.
Acrescentou que “o relatório é preliminar porque não é último, e depois foi um acto muito breve. O presidente do MDM entendeu também dar-nos informações daquilo que o MDM sentia do processo eleitoral. Ouvimos e agradecemos o facto de nos ter informado de vários aspectos, incluindo a câmera através da qual eles conseguiram filmar algumas mesas de voto sem os presidentes se aperceberem. E nós agradecemos e vamos reflectir sobre estes dados sem comentários neste momento”.
As imagens captadas irmão mudar a vossa forma de actuação futuramente? Perguntámos a Brazão Mazula. “Nós dissemos ao candidato do MDM que eu não sou Observatório, nem os dois que viemos. Portanto, vamos levar isso à equipa do observatório. Vamos analisar isto e ver quais os procedimentos a seguir”. Estes comentários foram a propósito da fraude filmada pelo MDM numa escola da Beira.
(Adelino Timóteo)
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