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Canal de Poesia: por Jorge Rebelo
A DUALIDADE DO SER
“Ensinar a não calar, a não ter medo, partilhar a emoção de fazer bem, fazer acordar a consciência, impulsionar a Viragem”

Maputo (Canalmoz) – Do ex-combatente da Luta de Libertação nacional, ex-ministro da Informação, ex-Secretário do Trabalho Ideológico do Bureau Político do Partido Frelimo, publicamos a seguir o poema ‘A DUALIDADE DO SER’, a “ensinar a não calar, a não ter medo, partilhar a emoção de fazer bem, fazer acordar a consciência, impulsionar a Viragem”:

A DUALIDADE DO SER

COSTUMO assistir, nunca falto a estas cerimónias (quando me convidam).

A de ontem então foi empolgante:
Muito faustosa, muitas figuras,
ouvimos discursos laudatórios,
patrióticos, exalando saber e rectidão.
Adorei.

Mas outra parte de mim estava distante,
indiferente, alheio a tudo. Queixava-se:

“Vamos embora.
Estes ambientes pomposos incomodam-me,
Fico perdido
perco-me no ar morno dos salões
nos apertos frouxos das mãos
nos sorrisos pré-fabricados,
nunca sei qual a linguagem certa
as vénias que de mim se esperam.
- Ai as vénias! - diz ele. Mal-aventurado
quem as inventou.
Porque, escuta bem: as vénias não são só
a curvatura do corpo.
Também a alma - a tua alma - se curva.”

Não liguei.
EU não arredei pé.
Até ao fim, hirto, solene
bati palmas, entoei loas
orgulhoso por ser parte
da ilustre nomenclatura.

Mas o outro em mim não se conforma.
Zanga-se:

“Irmão, que prazer encontras nestas feiras?
O que vens aqui buscar?
Vens adular o poder?
Eu não falo por parábolas
Digo as coisas como são, cruas e sem enfeites.
Muitas vezes incomodam
inquietam.
Mas calar?
Calar não é render-se, não é trair?
Quando os outros calam eu falo.
Quando escondem nomes eu cito.
Pergunto donde vem a opulência deste
e daquele.
Porque é que tão poucos têm tanto
E tantos têm tão pouco.
Foi por isto que lutaste?
Dizer a verdade é pecado?
Apontar os erros é crime?
Responde se és capaz.”

É incómodo este outro eu,
MAS NÃO SEI COMO ME LIVRAR DELE.

E por estranho que pareça,
no fundo de mim - e não tão fundo -
venho alimentando esta esperança :
que um dia, muito em breve
ELE SE LIVRE DE MIM.
E liberto finalmente, possa então
realizar a missão
que a si mesmo se impôs:
ensinar a não calar, a não ter medo,
partilhar a emoção de fazer bem,
fazer acordar a consciência,
impulsionar a Viragem.

(Jorge Rebelo)

2010-07-30 07:25:00
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