Nampula (Canalmoz) – A Comissão Política Nacional (CPN) do partido Renamo, que reuniu entre quinta-feira e sábado, na cidade de Nampula, a Norte do país, decidiu, por consenso, não reconhecer os resultados do pleito eleitoral do passado dia 28 de Outubro findo, mesmo antes do Conselho Constitucional se pronunciar.
De acordo com José Manteiga, porta-voz da 3ª Sessão da CPN da Renamo, alargada a delegados políticos provinciais e quadros seniores, no encontro concluiu-se que a fraude defendida pela perdiz teve o seu embrião no processo de actualização do recenseamento eleitoral e da rejeição da revisão da respectiva legislação eleitoral na Assembleia da República, pela bancada maioritária, ou seja, a Frelimo.
Na mesma sessão, segundo revelou Manteiga, ficou claro, pelas discussões, que, para além da falsidade do próprio recenseamento eleitoral, o Secretariado Técnico de Administração Eleitoral (STAE) produziu cartões de eleitor fora do prazo estabelecido por lei para eleitores não activos, com vista a distrair os eleitores e favorecer a Frelimo, ou seja, produzindo cadernos paralelos para que jovens com menos de dezoito anos de idade pudessem votar na Frelimo.
A fraude, segundo a Renamo, deveu-se ainda à negligência na credenciação de delegados de lista e de candidatura, bem como a não emissão de atestados de residência por parte das entidades de direito, para membros da Renamo.
A Renamo diz ainda que notou-se o envolvimento massivo das organizações sociais do partido Frelimo, com destaque para a Organização da Juventude Moçambicana (OJM) e grupos dinamizadores no processo de suporte ao pleito. Houve ainda abertura tardia de urnas, troca e desaparecimento de cadernos, para além da interferência directa da Frelimo
A Renamo refere ainda que houve interferência de forças armadas, violando-se assim o princípio segundo o qual as forças policiais se devem manter a mais de trezentos metros das assembleias de voto.
O porta-voz da 3ª Sessão da Comissão Política Nacional da Renamo disse também que houve coação à boca das urnas, recusa de entrega de actas e editais a mandatários da oposição, recusa de recepção das reclamações e intimidação de eleitores por parte dos membros da Polícia da República de Moçambique, PRM.
Para além das constatações que foram arroladas na 3ª Sessão da CPN, José Manteiga apontou a discrepância registada nos resultados ora anunciados e que aguardam pela validação do Conselho Constitucional (CC).
A verdade, segundo aquele porta-voz, é que a Renamo não reconhece os resultados e tudo vai fazer para que os mesmos não conduzam à existência ou formação de um novo Governo.
Manifestação popular
Num outro desenvolvimento, o porta-voz da Renamo nesta sessão disse ter sido igualmente decidido a realização de uma manifestação pública e popular à escala nacional, em retaliação dos mesmos resultados.
Manteiga não avançou a data, mas confirmou estar para breve a realização da manifestação, esperando-se, porém, pela posição do CC.
“Camaradas” jornalistas atacam Manteiga
A conferência de imprensa para o anúncio dos resultados ou decisões saídas da 3ª Sessão da Comissão Política Nacional da Renamo, teve lugar na tarde do último sábado, numa instância hoteleira da capital do Norte.
Logo após a leitura do documento final da sessão que a Renamo acabara de realizar, alguns jornalistas que estiveram no acto, e que aparentavam estar em estado de embriaguês, entraram a “atacar” o porta-voz da referida sessão.
No epicentro da contenda esteve o facto do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, não ter participado no encerramento do Conselho. Segundo fez questão de esclarecer o porta-voz do encontro José Manteiga , Dhlakama encontrava-se com “dores de joelho e deveria manter-se em repouso, segundo recomendações médicas”.
Certos jornalistas, no entanto, estranhamente agiam como se de mandatários políticos se tratassem e exigiam insistentemente que o porta-voz anunciasse que o líder da perdiz estava padecendo de uma enfermidade. Insistentemente falavam de “trombose”. A cena levou minutos. O porta-voz regional da Renamo, para a zona Norte do país, Arnaldo Chalaua acabou com o espectáculo e tratou de encerrar a conferência de imprensa.
De referir a propósito que aqui em Nampula existe uma célula do partido Frelimo que congrega jornalistas e se designa por “Célula F”. Os jornalistas que não fazem parte dela, são conotados como sendo da oposição ou algo semelhante, e em muitos casos são perseguidos por agentes da SISE. A estes mesmos jornalistas conotados com a oposição são escondidos os programas dos governos locais e do partido Frelimo.
Recordar ainda que o ano passado, à margem de um lanche numa das instâncias turísticas de Nampula, Manuel Tomé, chefe da brigada central do partido Frelimo para a província de Nampula, reconhecera que os jornalistas do maior círculo eleitoral e a província mais populosa do país são suficientemente camaradas, por isso, tratou de lhes prometer casa através do Fundo de Fomento da Habitação (FFH) o que não chegou a acontecer. De imediato o Canalmoz noticiou o que se passara nesse “lanche” e hoje acredita-se em Nampula que as doações de casas não se concretizaram por se ter dado conhecimento ao público do aliciamento que se preparava.
(Aunício da Silva)
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